Língua e Cultura

06-04-2010

“Trovas Brejeiras de Dom Reinardo,” o mais antigo exemplo conhecido de literatura em língua bugiesa.

O bugiês é uma língua românica aparentada com o português, o castelhano, o francês, entre outras. Tem o estatuto de idioma oficial do Grão-Ducado apesar de os seus territórios ultramarinos possuírem idiomas próprios (as línguas nativas de Bolanga, o francês, o holandês e o alemão na Bélgica, o inglês nas Bahamas, o crioulo de Corroios, o antárctico ou mesmo o dialecto da língua lituana que, vá-se lá saber porquê, é falado em Esta Ilha Aqui).

Apesar das semelhanças entre a língua bugiesa e o português, a Real Academia Bugiesa de Língua e Cultura aponta diferenças bem definidas. A saber:

  • O bugiês tem quatro géneros (o masculino, o feminino, o efeminado e o cavalão) enquanto o português apenas tem dois.
  • Em bugiês as palavras “pudim”, “testículo”, “arroba” e “candelabro” não existem. Para as substituir usa-se de forma indiferenciada a palavra “brócolo.” Em ambas as línguas, levar um pontapé nos brócolos é igualmente doloroso.
  • Todos os substantivos da língua bugiesa podem ser conjugados como verbos. Isto é absurdo e completamente inútil mas não há nada a fazer.
  • Frases como: “Prontos, tipo, é assim” ou “Derivado à situação, a gente semos prejudicados” são consideradas correctas e eruditas em bugiês.
  • Com algum esforço mental, é possível construir uma frase inteira apenas com repetições da palavra “queijo” e derivados. Exemplo: “Queijo queijaria queijada queijinho requeijão.” (Tradução: “O clima da estepe mongol pode ser agreste, sobretudo nos meses invernosos.”)
  • Em bugiês, os artigos definidos são indefinidos e os artigos indefinidos são definidos. De igual forma, os advérbios de tempo são advérbios de modo e os advérbios de modo são advérbios de outra coisa qualquer. Os pronomes relativos têm uma natureza incerta e exigem cautela.


A Literatura do Bugio

A literatura bugiesa é de uma riqueza fascinante. Desde os primórdios que a alma nacional do Bugio se manifestou nas suas letras, provando de forma indesmentível a singularidade do seu povo. “As Trovas Brejeiras de Dom Reinardo” de Reinardo de Xafarica, magnífico exemplo de poesia trovadoresca, marcam o início de uma épica aventura literária que se prolonga até aos dias de hoje. De forma mais ou menos consensual, é costume referir-se que os maiores nomes da literatura bugiesa são, essencialmente, três. Tristão Paes, Filomena Mendonça Sim-Sim e Jesualdo Perequito.

Tristão Paes (??-1528) – O pai do teatro bugiês. Foi colega de brincadeiras do português Gil Vicente com quem terá passado muito tempo a ir às rolas. Influenciado pelo amigo (e também, diz-se, pelas rolas), aproveita a fundação do Teatro de São Lourenço por iniciativa do Príncipe Ferdinando para estrear a sua primeira peça: “Monólogo do Pastor” que teve grande aceitação popular. Seguiram-se “Auto da Calma”, “Auto da China”, “Auto do Barco do Inverno”, “Farsa de Inês Sequeira” e o “Auto de Regina Mendes.” A carreira deste profícuo autor, de que se referem apenas algumas das suas inúmeras obras, teria um fim precoce quando Gil Vicente o mandou açoitar por plágio, incidente que acabaria por lhe provocar a morte e consequente fim da amizade. Os historiadores literários não põem de parte a veracidade das acusações de plágio em nenhuma das peças à excepção da “Farsa de Inês Sequeira” que terá antecedido a “Farsa de Inês Pereira” de Gil Vicente, sendo o português, neste caso, o plagiador.

Filomena Mendonça Sim-Sim (1821-1866) – Abandonada pelos pais em tenra idade por cheirar mal dos pés, Filomena Mendonça foi criada por uma velha costureira que lhe batia todas as noites com um saco de lona cheio de pregos com o pretexto de só assim a conseguir ensinar a rezar o terço em condições. Graças aos maus tratos, a jovem Filomena acabaria por se tornar uma mulher amargurada e cronicamente deprimida que encontrou na poesia a escapatória para o seu sofrimento quotidiano. Em 1839 casa com o proprietário rural Josias Sim-Sim que, após se comportar inicialmente como o príncipe encantado dos seus sonhos, começou a bater-lhe sem motivo aparente. A noite de núpcias passou-a a coser com agulha e linha um corte que o marido lhe fizera no sobrolho com uma picareta. Atormentada pelo desgosto, poria fim à própria vida em 1866 ao afogar-se num copo de água. Foram precisos oito meses e dezenas de tentativas para atingir o trágico objectivo. Entre os seus poemas mais marcantes, destacam-se “Ai, ui, o Amor Dói,” “Trovas a um olho roxo”, “O Meu Único Amor é Um Saco de Lona Cheio de Pregos” e “Esta bofetada que me dás” todos reunidos no volume “Versos Doridos” publicado a título póstumo.

Jesualdo Perequito (1927-1991) – Considerado por muitos como o maior romancista bugiês de todos os tempos. Iniciou a sua vida como estivador e começou a escrever contos nos caixotes que ia descarregando dos barcos, razão pela qual toda a sua obra deste período se perdeu excepto “Estória de um abacaxi renegado,” inspiradora fábula satírica escrita a canivete num caixote de bananas recém-chegadas do Funchal. O primeiro romance de sucesso foi “Estou-me nas tintas para isto” publicado em 1949, contando a história de uma família aristocrática bugiesa que tenta esconder a paixão filatélica do filho primogénito. Em 1986, foi nomeado para o Nobel da Literatura mas não passaria daí, visto que a Academia Sueca referiu não aceitar nomeações feitas por telefonema anónimo com voz ofegante. Outras obras: “Daqui para ali” (1953), “Irra que já chateia!” (1958), “As Mamas de Matilde” (1971) e “Relicário de Um Palerma” (1987), a sua última obra que muitos consideram ser autobiográfica.

A Música do Bugio

Rica em sonoridades e com harmonias fascinantes, a música bugiesa conquistou os ouvidos do mundo. Entre os muitos intérpretes de qualidade, merece destaque o “trio de ouro” da canção nacional, como alguém lhe chamou por falta de qualificativo mais apropriado.

Wenceslau Sepúlweda – Nome artístico de Venceslau Sepúlveda, o pioneiro da chamada “música de intervenção quotidiana,” autor de composições tão memoráveis como “Balada de um aguaceiro sem guarda-chuva,” “Sem lugar naquele autocarro,” “Eras tu ou outra pessoa parecida?” e “Passa-me o papel higiénico” que se tornaria o hino de uma geração. O grande concerto no Odeon de São Lourenço em 1989 marca o apogeu de uma carreira antes do seu trágico desaparecimento (Wenceslau continua vivo mas, apesar de continuar a editar colectâneas semestrais dos seus êxitos, há vários anos que ninguém sabe onde se meteu).

Guy Pride – A maior boys band bugiesa, conseguindo apelar a miúdos e graúdos com os seus ritmos cativantes e coreografias arrojadas. Especialmente populares junto do público feminino entre os 9 e os 14 anos que acorre aos seus concertos e inunda todas as aparições públicas em busca de um autógrafo ou de umas lascas de pele dos seus ídolos. Parte do sucesso radica também no facto de nenhum dos rapazes ter namorada por continuar à espera da pessoa certa. O seu primeiro disco está na calha há algum tempo, aguardando-se apenas a autorização legal para editar as versões traduzidas de músicas de George Michael que constituem todo o repertório.

Laurinda Corrimento – Laurinda começou a sua carreira como acordeonista do consagrado Agrupamento A Bilha e só em 1993 deu início à ascensão meteórica até à posição incontestada de “Rainha da Brejeirice” que hoje ocupa. O álbum “Baladas do Pito” foi disco de platina três anos antes de estar à venda e o sucesso de “Cançõezinhas de ir ao Tu” foi ainda mais estrondoso. Nos últimos anos, abdicou de dar títulos diferenciados aos seus trabalhos mas, mesmo assim, as vendas de “Tostamix 14″ quebraram todos os recordes de vendas e o single “Atraca-me à Traição” foi o tema mais tocado tanto na Antena Nacional Bugiesa como na Emissora Evangélica Despertar.

Por Bugio

Outros artigos